Não quero mais.
Não quero mais fumar porque sinto falta de respirar a plenos pulmões. Porque sou atrapalhada e dividir minhas mãos entre cigarro, maço, bolsa e bilhete único me faz parecer mais tonta do que já sou. Porque gosto de ficar dentro da balada, do lado da caixa de som. Porque quero sentir melhor o cheiro e o gosto dos alimentos. Porque quero que se lembrem de mim pelo cheiro do meu hidradante, do meu perfume, ou até mesmo da minha pele, feromônio, pelo gosto puro da minha saliva, e não pelo aroma artificial de cinzeiro.
Porque meus dentes ficaram mais amarelos e basta, mais do que isso é falta de vergonha na cara. Porque quero ter uma vida mais saudável. Porque quero ter filhos um dia e não quero ter que esperar até lá para largar o vício. Porque não quero envelhecer precocemente, embora não ache que envelhecer seja um problema. Porque minha mãe conseguiu largar e quero seguir o exemplo dela. Porque meu pai e meu irmão fumam e quero ser exemplo pra eles. Porque me sinto burra sempre que compro um maço e me deparo com os prejuízos à saúde estampados atrás da caixinha. Sobretudo porque não gosto de me sentir escrava de nada.

Comecei a fumar para me desconhecer. Eu, que abominava cigarro. Eu, que não fazia ideia do que era o vício vivido por dentro do organismo suplicante por mais, mais, só mais um, não, só quando eu tomar cerveja, não, só enquanto durarem os estados alterados de consciência, não, esse é o último, não, só mais esse maço, não, na segunda eu paro, não, me dá um trago do seu?, não, depois que o projeto e toda essa ansiedade acabarem, não, qual é a próxima desculpa?
Sempre gostei de experimentar um pouco de tudo nessa vida, e não tenho dúvidas de que o vício faz parte. É bom saber o que é o vício, o que ele faz com a vida de uma pessoa, como é difícil lutar contra ele. É como se eu tivesse escolhido o caminho da loucura por um tempo, só pra saber como é ser louco e como lidar com os loucos. É preciso se permitir ser louco pra começar um vício. É preciso morrer pra se acabar com ele.
Este texto sou eu me atirando do décimo andar. Espatifado, no chão, ficará o vício. Mas a loucura, meu amigo, essa continuará em pé.



